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Descamisada

por aquimetem, em 09.09.13

 ~

Corte da palha

Já lá vão uns anos que no ELO da Bajouca publiquei uma série de artigos à volta das tarefas relacionadas com o milho e seu produto final. Abri com este artigo que transcrevo a seguir, em homenagem aos promotores e participantes na mostra etnográfica que foi a desfolhada realizada no passado dia 7, na Bajouca Centro.

Transporte das espigas

A jornada começou depois de almoço com o corte da palha e carreto para a eira do ti Joaquim, no Outeiro, prolongou-se com as demais operações que vão desde a descamisada, malhada e guardar do grão. Pelo meio a partilha, o gosto de conviver e colaborar nas iniciativas culturais e humanistas fizeram-se notar no rosto e na alma de todos os participantes.

 

Um grupo selecto de descamisadores

 "Do descamisar até ao forno - I

 Como acontecia por ocasião do cavar, do semear e do sachar a terra, ou do vindimar das uvas e apanhar da azeitona, também nas “descamisadas” os ranchos de pessoal familiar e comunitário eram notórios e relevantes no levar a cabo dessa alegre e participada tarefa rural. Tarefa que consistia e consiste em retirar a espiga do interior do folhoso invólucro que a envolve desde a formação até ao envelhecer da palha e amadurecimento do grão, e que tem no Minho e em Trás-os-Montes a designação de “desfolhada”; e em certas terras das Beiras, como por exemplo em Carregal do Sal (Viseu) e Oliveira do Hospital (Coimbra), a de “descascada”.

 

 Descamisada ou desfolhada, na Bajouca, em 7/9/13.

Precedida do corte e acarretar da palha com as maçarocas do milho para junto de um improvisado descamisadouro, a tradicional descamisada carecia não apenas de quem descamisasse, mas também de pessoal que soubesse enfeixar e atar as canas em pequenos molhos, que de seguida eram acumulados em “meda” ou “merouca” ao redor duma estaca, como ainda sucede a norte do Rio Douro, ou então, como na Bajouca, empilhados na “palhoça” vizinha da  casa e do curral do gado.

O bom humor não faltou

É mais uma das antigas tradições rurais em risco de se perder. Isto porque o costume de conservar a espiga agarrada à cana do milho até ao preciso momento do corte e consequente descamisar está progressivamente a cair em desuso e a ser substituído pelo de no próprio campo ou lameiro se retirar as maçarocas do  interior da camisa (= folhelho ou “cosco”), deixando o corte das canas para uma outra ocasião. Ocasião que até pode nem surgir, quer pela escassez de mão-de-obra, quer devido à falta de gado nos currais do agricultor, e mesmo o pouco que ainda possa haver, por também afidalgado, em vez de palha já dá muito mais apreço às vitaminadas farinhas de engorda..."

 

Os "mantilheiros" não podiam faltar neste cultural evento

"Do descamisar até ao forno – IV

Assim como na região da Bajouca imperam os “mantilheiros” com suas pantominices para animar as descamisadas; no Minho são as espigas de “milho-rei” (= beneras) e as “rainhas” (= treses) que ao serem encontradas por alguém no “desfolhadouro” (=descamisadouro) dão origem a certos momentos de vivo reboliço e alegre divertimento entre os circunstantes. Sobre tal assunto, na monografia “Vilar de Ferreiros – na história, no espaço e na etnografia”,do ano 2000, fiz constar, na pág. 75:“Nesta participada tarefa os intervenientes cantam, contam histórias e voluntariosamente dão a sua desinteressada colaboração, quando muito apenas à espera de serem recompensados com uma “pinga” ou então pela ânsia de festejarem o aparecimento de uma espiga vermelha, “milho-rei” ou mesmo uma espiga serapintada,“rainha”; acontecimento que não sendo rezado - o que só  sucede  caso quem a encontrou tenha enviuvado ou esteja de nojo - se celebra sempre com o tradicional abraço da pessoa que teve a dita de encontrar a espiga da sorte...”, a todos os presentes.

 

 O anfitrião com a filha Fernanda de malho na mão. Força ti Joaquim

Embora o assunto já tenha sido abordado anteriormente, nunca é de mais lembrar que desde a sementeira do grão até ao despontar da espiga no tenro caule do milheiro, o milheiral em quanto na sua primeira fase, à espera de vingar e produzir boas maçarocas, ainda serviu por algum tempo como fonte alimentar do gado domestico. Como já mais tarde, na fase do amadurecer da planta, foram os “crutos” ou “crochas” que ainda voltaram como ração de verdura à manjedoura dos animais. De recordar que nessa ocasião também a “barba de milho” começava a torcer de seca.

Peixinho e pão do Zé e da Fernanda Capitão foi a delicia do evento. Parabéns Bajouca Centro!

 E antes que os mais velhos se fossem a ela por ser um óptimo diurético quando “usada sob a forma de infuso, extracto aquoso, decocto e xarope do extracto”, era a canalha mais ousada, e às escondidas dos pais, quem a aproveitava, para em segredo se iniciar no vício do fumo. Hoje a iniciação é às claras, na rua, à porta de casa ou da escola; e, em vez da barba de milho, optou-se por “plantas”  e “pozinhos” da estranja..."

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publicado às 20:14



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